
A NOITE DE ABRAÃO
Detenhamos nesta noite a nossa atenção sobre aquela cena já tão fartamente estudado, mas sempre grata ao coração crente, a cena da provação de Abraão, na qual reluz fulgurante o extraordinário brilho de sua fé. Era noite em Beth-sheba, e o solene silêncio que envolvia a tenda de Abraão, foi quebrado com a visita divina.
Gênesis 22:1 e 2: "E aconteceu depois destas coisas que tentou Deus a Abraão e disse eis-me aqui, e disse: toma agora o teu filho Isaque a quem amas, e vai-te à terra de Moriá e oferece-o ali como holocausto numa das montanhas, que eu te direi."
Estimados amigos e irmãos em Cristo, humanos que somos, dados as limitações que nos são próprias, somos levados a concluir que essa provação se revestiu de características demasiado severas. Abraão toma o seu filho a quem ama e oferece-o no Moriá.
“- Deus sanguinário, o Deus de Moisés! Assim brada irreverente o vozerio racionalista e céptico.
“- Deus sanguinário o Deus de Abraão, o Deus de Moisés, proclamam aqueles que não conhecem as belezas da fé cristã.
Como contemplo essa página da revelação tão repassada de tocante beleza que empolga por inteiro o coração piedoso !
“Abraão toma o teu filho Isaque.” Isaque era-lhe a luz da velhice, consolação do lar e sobretudo o herdeiro da bênção prometida. Naquele moço, o velho encanecido patriarca, havia concentrado as suas mais acariciadas esperança.
Mas quão estranho, quão surpreendente o pedido de Deus!
Abraão levantou-se de sua tenda e saindo contemplou o céu sem nuvem, um céu estrelado e se lembrou de uma promessa que lhe havia sido feita, quase cinquenta anos passados: a sua descendência seria tão numerosa que as suas miríades de estrelas que iluminam o fundo escuro
da noite. Mas se estas promessas, tão confortadoras para o patriarca, deviam-se cumprir através de Isaque, como então Deus pedia o seu filho em holocausto?
Em sua angústia, conta a Irmã White que ele se pôs de joelhos naquela noite de dura prova como nunca dantes em sua vida.
Prezados jovens, nada mais consolador, nada mais alentador para as horas escuras da noite, horas escuras da prova, do que o recurso infinito da oração. Abraão orou em profundo desespero.
Rudyard Kipling, o grande gênio da literatura internacional, na sua última visita aos EE.UU, da América do Norte, foi acometido por uma grave enfermidade. Estando ele num hospital, em noite de crise, a sua vida parecia não suportar a violência da enfermidade, e o médico assistindo aquele extraordinário gênio da literatura, vendo a responsabilidade que estava sobre ele, como médico daquele ilustre paciente, disse à enfermeira: "Essa é uma noite grave, essa é uma noite difícil, na vida desse homem. Coisa alguma deve perturbar o seu silêncio, todo o ruído deve ser evitado nessa noite." E o médico saiu .
Ali estava a enfermeira desvelada no seu paciente cuidado. O enfermo gemia. Ali estava ele consumido pela febre. As horas se arrastavam silenciosamente. Havia um gemido. Um murmúrio como que balbuciava. Parecia que as palavras tropeçando dos lábios febris daquele pobre enfermo, não saiam claras, suficientemente claras. Ela se aproximou mais e ouviu a súplica daquele pobre enfermo que dizia
• "Eu preciso..."
E ela acercou-se mais dele, e continuou:
• "Eu preciso..."
Ela sabia que não devia romper o silêncio da noite. Tão pouco perturbar o repouso de Kipling. Porém não se conteve na sua curiosidade. Disse ela:
• "Mr. Kipling, do que necessita o senhor?"
E ele disse:
• "Eu necessito de Deus."
Abraão naquela noite de angústia, necessitava mais do que nunca de Deus. Ele orou e depois voltou à sua tenda com o coração oprimido e contemplou a Isaque, moço robusto e forte, que dormia um sono profundo e calmo. Ele contemplou a Sara, já encanecida, com a sua face rugosa, leal companheira de muitos anos, e pensou: "Devo eu despertar a Sara e contar-lhe o estranho pedido de Deus? Não, Sara não entenderá – levada pelo amor de mãe ela se recusará obedecer a Deus.
Gênesis 22:3: "Então se levantou Abraão de madrugada, albardou o seu jumento, tomou consigo dois de seus moços e Isaque seu filho. E fendeu lenha para o holocausto, levantou-se e foi ao lugar que Deus dissera."
Isaque havia acompanhado o seu pai muitas vezes, nesses atos de adoração. E agora o papai desperta e Isaque se levanta. O papai o convida para oferecer um sacrifício lá na plataforma rochosa do Moriá. Isaque apesar de moço apreciava essa comunhão com Deus. Ele sentia prazer nesse diálogo com o céu e acompanhava sempre prazeroso, seu pai.
Prezados jovens e irmãos: Aqui estamos num ato de adoração. Estamos nós aqui num ato voluntário ou estamos aqui porque fomos obrigados pelos pais?
Isaque se dirigiu contente com seu pai. Fizeram-se os preparativos para a viagem. Preparou-se a lenha. Lá estavam os dois servos acompanhando a Isaque. Viajaram durante um dia inteiro, mas uma tristeza profunda marcava o semblante do velho patriarca Abraão. Isaque não ousou interromper o silencio no qual estava mergulhado o velho patriarca.
Veio a noite, surpreendendo-o em meio à jornada. Isaque cansado e os dois moços também exauridos, dormiam e entregaram-se ao sono da
noite. Porém Abraão com o coração alanceado pela dor, não podia dormir. Durante a noite inteira ele orou, derramando a sua alma angustiada perante o céu. Ele não murmurou na sua súplica, não maldisse a sua sorte, mas fortaleceu a sua alma, lembrando-se das bênçãos, lembrando-se das misericórdias, mercês e graças recebidas de Deus. Outro longo dia de jornada se seguiu e a noite desceu outra vez sobre a terra.
Gênesis 22:4-7.
E assim caminharam juntos. Subiam eles a ladeira do Moriá. Para Isaque, era estranho que seu pai não dizia uma só palavra. Papai aqui está a lenha, aqui está o cutelo, aqui está o fogo, mas onde está a ovelha?, onde está o sacrifício, meu pai?
As palavras carinhosas e ternas de Isaque, feriam o coração sensível de Abraão. O papai não teve naquele instante, forças para desvendar diante de Isaque o estranho mistério de Deus.
Deus proverá, meu filho. Nas palavras de Abraão há uma profecia. Chegaram à plataforma rochosa do Moriá e levantaram o altar.
Sobre o altar colocaram a lenha.
E agora o papai, vivendo fundas e insopitáveis emoções, com o coração esmagado pela dor, abre diante de Isaque estranho e surpreendente pedido de Deus. Foi com terror e espanto que Isaque soube de sua sorte, mas não pode resistir. Isaque havia sido educado desde o início numa obediência pronta e ali estava disposto a se entregar aos soberanos desígnios de Deus.
Prezados amigos, uma das mais inquietantes e perturbadoras realidades dos nossos dias, é o espírito de rebelião contra o princípio de autoridade – no lar, na escola e na sociedade. Essa rebelião contra o princípio de autoridade, tem suscitado essa geração – moços e moças rebeldes; moços e moças amantes de uma independência frívola; moços e moças que se insurgem contra o princípio de autoridade. E essa rebelião contra o principio de autoridade contra o papai e a mamãe caducos e superados, contra o educador intransigente, contra essa
sociedade tão ortodoxa, diz o moço moderno. Essa rebelião tem sido responsável pela conduta anti-social de moços e moças de nossos dias. E essa conduta anti-social se manifesta nas fugas, furtos, nos atos predatórios, nos delitos sexuais e na vadiagem.
Amigos, que podemos esperar de uma geração que não respeita a autoridade paterna, que podemos esperar de uma nova geração turbulenta, agitada, rebelde e indiferente, que se insurge contra a autoridade da escola e a disciplina da vida em sociedade?
O Correio da Manhã, jornal do Rio de Janeiro, afirmou: “Uma juventude assim em rebelião não é controlada nem pelo poder paterno, nem pelo poder constituído, essa juventude não produzirá jamais homens grandes para um Brasil grande.”
Toda a rebelião contra o principio de autoridade, toda a rebelião contra o papai que imaginamos caduco, antiquado, toda a rebelião contra o educador que julgamos ranzinza e impertinente, toda a rebelião contra a ordem constituída, constitui uma violência, uma ofensa a Deus, uma transgressão do quinto mandamento que diz: "Honra o teu pai e a tua mãe." Sim, este mandamento é um pouco mais abarcante do que supomos, do que às vezes imaginamos.
Mas é confortante pensarmos que em Isaque, moço robusto, podia ali se rebelar contra o pai, podia se insurgir contra o desígnio de Deus, mas forte como era, despontando para a vida, com toda a sua energia e vitalidade, ali estava disposto a se submeter ao soberano propósito de Deus.
Admirável e sublime quadro: lá estava o papai com seu coração oprimido e esmagado pela dor. Ali estava um filho disposto a obedecer em tudo ao seu pai, sobretudo a Deus. As últimas palavras foram trocadas, as últimas lágrimas derramadas, o último abraço dado. O pai levanta o seu braço cansado, a sua mão trêmula, e ele tem em sua mão o cutelo. E quando a ameaça desceu para tirar a vida de seu filho, eis que o anjo detém o braço de Abraão.
Gênesis 22:11 e 12.
Amigos, a fé para ser consciente e robusta necessita ser provada. Dá-se o mesmo com o ouro antes de se transformar nessas jóias faiscantes de raro valor. Ele necessita ser provado, purificado e refinado. Tal ocorre com o soldado antes de marchar garboso nas paradas pomposas. Nas manhãs festivas ele tem que praticar, ele tem que exercitar, ele tem que treinar.
Assim Abraão, antes de comparecer soberbo na galeria dos heróis da fé, teve que ser provado, teve que ser experimentado, teve enfim que ser treinado.
Tremendas provas aguardam a igreja de Deus. Nos profetas de calamidades conhecemos a revelação e bem sabemos que sobre a igreja e sobre o mundo virá um Tempo de Angústia qual nunca houve. E somente aqueles que tiverem a fé robusta, a fé perseverante, atuante e inabalável de Abraão, passarão triunfantes e vitoriosos sobre a dura prova que está por vir sobre a igreja. Mas a resposta de Abraão foi: Meu filho, Deus proverá!
Com efeito no Verso 13, encontramos: “...”
Sim, Deus proveu um cordeiro, a mão divina deteve o braço de Abraão. Não Abraão, não faças tal. E Abraão contempla e encontra um carneiro preso pelas pontas, e ele e o seu filho oferecem aquele carneiro num sacrifício de ação de graças, cheiro suave ao Senhor.
Meus prezados amigos, eram proféticas as palavras de Abraão. Quando Jesus, como varão estava para iniciar o Seu ministério, quando caminhava pelas poeirentas estradas orientais, João Batista, o profeta singular, excêntrico, com o dedo em riste disse: "Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo!"
Com efeito, ali estava o Cordeiro prometido, ali estava a esperança do mundo, ali estava o Cordeiro anunciado pelos antigos profetas.
Mas, perguntamos, quando e onde Jesus como cordeiro, levou os nossos pecados?
Em 1 Pedro 2:4, encontramos a resposta a essa pergunta: " ... "
Lá no Moriá um cordeiro morreu no lugar de Isaque. Lá no Gólgota um Cordeiro morreu em meu lugar; lá no Moriá um substituto foi colocado no lugar de Isaque. Lá no Gólgota um Substituto sofreu a morte afrontosa, a morte vicária, a morte oprobriosa que nós deveríamos sofrer. Cristo Jesus morreu em nosso lugar.
Mas, agora abrirei o meu coração, mostrando uma inquietude. Muito em breve alguns que me ouvem estarão numa universidade. Ouvirão dos lábios de professores racionalistas afirmações como estas: “A salvação do que a salvação do homem está na técnica e na ciência.” Alguns ouvirão a pregação de professores humanistas, dizendo: “A salvação do homem depende do próprio homem, depende de cultura, da educação, do refinamento do caráter, da eliminação do mal pela prática do bem.” Alguns ouvirão o discurso de brilhantes economistas proclamando que a salvação da sociedade, a salvação do indivíduo depende da aplicação dessa ou daquela dialética econômica.
Mas notem o que encontramos no livro de:
Atos cap. 4:12: “...”
Quando ouvirdes essa pregação lembrai-vos deste texto, sublinhai-o hoje em vossa Bíblia. Quando essa pregação dos racionalistas soar em vossos ouvidos, quando essa pregação humanista soar em vossa mente, lembrai-vos das palavras: Somos salvos através da morte do Cordeiro.
Um jornalista, a serviço de um grande jornal, visitou o Instituto Pasteur aqui no Estado de São Paulo, na capital de S. Paulo. E se impressionou com o sacrifício de vítimas inertes e indefesas. Ele se estarreceu diante dos cordeiros que estavam sendo imolados como cobaias ali nos laboratórios da ciência. E ele dizia o seguinte: A cena que assistimos de respiração presa era realmente chocante. De bruços com as patas seguras por mãos vigorosas, o cordeiro dócil, como que antevendo o fim que lhe era reservado, suportava pois com impressionante resignação a ponta de um instrumento a cavoucar-lhe o crânio, em busca
da região mais sensível do seu corpo, o cérebro. Descoberta a parte procurada, uma agulha comprida é ali espetada, levando para o sistema nervoso do animal o vírus que o fará completamente paralítico, dentro de poucos dias.
Terminada a intervenção, o cordeiro sangrando é levado até o local, onde ficará em observação. Se não suportar a ação do preparado morrerá. Se resistir morrerá também no matadouro, construído nos fundos do quintal do Instituto. Depois da autópsia sua medula irá servir para a fabricação da vacina de FERME, contra a raiva.
O jornalista ali estava estarrecido, assombrado diante da violência daquele quadro – um cordeiro sendo imolado no holocausto da ciência. E ele perguntou: Porventura doutor, não haverá outros processos para salvar o homem, senão através da morte de um cordeiro; não existem outros métodos capazes de substituir a bárbara tortura de indefesos animais? Respondeu o cientista:
– "Ainda não se descobriu método diferente. O cordeiro deve morrer, para que o homem possa sobreviver".
Amigos, não há outro método para a salvação do homem, em nenhum outro nome há salvação, senão em Jesus Cristo.
Sim, quão gratos podemos ser! Porque Cristo Jesus o inocente Cordeiro, se prontificou em tomar sobre Si as nossas transgressões, a nossa culpa.
Quão, gratos nos devemos sentir nesta noite porque Ele "tomou sobre Si os nossos pecados", e dá-nos em troca a Sua própria justiça.